Deve ser porreiro ter Cristiano Ronaldo como colega de equipa. Sobretudo nas derrotas.

Quando Portugal joga mal, mais de metade da equipa apresenta um rendimento abaixo do esperado e o coletivo não funciona, a explicação parece estar sempre pronta. A culpa é de Ronaldo.
É uma conclusão simples, mediática e confortável. Mas também é demasiado redutora.
Portugal apresentou vários jogadores de enorme qualidade, muitos deles habituados a desempenhar papéis centrais nas melhores equipas europeias. Ainda assim, raramente conseguiu funcionar como uma verdadeira equipa. Houve talento, experiência e capacidade técnica, mas faltaram equilíbrio, complementaridade e uma ideia coletiva suficientemente clara.
O meio-campo foi o exemplo mais evidente. Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves e outros jogadores têm qualidade para representar qualquer seleção. O problema não está no valor individual de cada um, mas na forma como são utilizados em conjunto.
Muitos procuram receber a bola nas mesmas zonas, aproximam-se do centro do jogo e acabam por ocupar espaços semelhantes. Como todos pareciam ter de jogar, tentou-se encaixá-los a qualquer custo. O resultado foi um meio-campo tecnicamente forte, mas pouco complementar, sem largura, sem profundidade e, demasiadas vezes, sem capacidade para acelerar o jogo.
Na frente, Cristiano Ronaldo ficou frequentemente isolado, rodeado por defesas e dependente de cruzamentos previsíveis ou de uma oportunidade ocasional.
Ronaldo já não é o jogador que resolvia partidas sozinho, partindo de qualquer zona do campo. Hoje depende mais dos colegas para receber a bola em condições de finalizar. Precisa que os médios acelerem, que os extremos desequilibrem e que a equipa consiga chegar aos últimos metros com critério.
Cristiano Ronaldo tem hoje limitações evidentes e um impacto diferente daquele que teve durante grande parte da carreira. A sua utilização deve ser pensada em função daquilo que ainda pode oferecer, e não apenas daquilo que já ofereceu. A equipa não pode ser construída para prolongar artificialmente a sua presença, mas também não pode esperar que ele resolva sozinho problemas que pertencem ao coletivo.
Pode e deve ser criticado quando joga mal. Nenhum jogador pode estar acima da análise. Mas existe uma diferença entre avaliar o seu rendimento e transformar todos os problemas da seleção numa consequência direta da sua presença em campo.
O debate legítimo não deveria limitar-se a saber se Ronaldo deve jogar ou não. Deveria procurar perceber em que contexto ainda pode ser útil, que jogadores devem atuar à sua volta e que modelo permite potenciar as qualidades de uma seleção com tantas soluções.
Portugal não perdeu apenas porque Ronaldo não marcou. Perdeu porque vários jogadores importantes estiveram muito abaixo do rendimento que apresentam nos clubes. Perdeu porque não criou vantagens, porque o meio-campo não encontrou equilíbrio e porque a posse de bola raramente se transformou em oportunidades claras.
Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves e tantos outros não podem ficar fora da análise apenas porque Ronaldo ocupa quase todo o espaço mediático.
Enquanto ele estiver na seleção, continuará a ser o culpado mais fácil. E muitos dos seus colegas continuarão a passar pelos pingos da chuva.
Portugal não precisa de onze nomes importantes. Precisa de uma equipa equilibrada.
Não jogou com dez. Jogou sem onze.
Por Paulo Gomes
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