A Seleção Portuguesa de futebol teve quase sempre grandes jogadores. Ao longo dos anos, Portugal teve extremos rápidos, médios criativos, avançados de qualidade, bons defesas e bons guarda-redes. Talento nunca foi o maior problema.

O problema foi muitas vezes outro: transformar bons jogadores numa verdadeira equipa.
Uma seleção não é apenas juntar os melhores nomes numa convocatória. Não basta ter jogadores em grandes clubes. Não basta ter qualidade técnica. Para ganhar competições, é preciso mais.
É preciso uma ideia clara de jogo. É preciso união. É preciso liderança. É preciso que todos saibam o que têm de fazer dentro de campo. E é preciso que todos coloquem o objetivo da equipa acima do interesse individual.
Portugal teve, em vários momentos, muito talento. Mas nem sempre teve uma equipa forte, organizada e convencida do seu caminho.
Faltou muitas vezes alguém que conseguisse dizer com clareza: “É assim que jogamos. É assim que defendemos. É assim que atacamos. É assim que ganhamos.”
Porque o talento pode ganhar jogos, mas raramente ganha campeonatos.
A geração de 2000 tinha jogadores fantásticos, mas viveu muito da inspiração individual.
A geração de Cristiano Ronaldo teve momentos muito fortes, mas também dependeu demasiadas vezes da capacidade de um ou dois jogadores resolverem.
O Europeu de 2016 mostrou uma coisa diferente. Portugal talvez não tenha sido a equipa mais bonita de ver. Talvez não tenha sido a equipa com mais brilho. Mas foi uma equipa unida, solidária, competitiva e mentalmente forte.
Portugal ganhou porque soube sofrer. Ganhou porque teve compromisso. Ganhou porque os jogadores aceitaram jogar uns pelos outros. Ganhou porque, naquele momento, foi mais equipa do que soma de talentos.
E esse é o ponto principal.
Quando Portugal funciona como equipa, aproxima-se do sucesso. Quando se deixa encantar apenas pelos nomes dos jogadores, perde força coletiva.
Hoje, o desafio continua a ser o mesmo.
Há muitos jogadores de qualidade, muitos deles em grandes clubes europeus. Há várias opções para quase todas as posições. Mas isso também pode ser um problema.
Quando há muitos nomes, muitos estatutos e muitas expectativas, é ainda mais importante haver liderança, autoridade e uma ideia simples.
Caso contrário, a seleção transforma-se num catálogo de bons jogadores.
E catálogos não ganham competições.
O selecionador português tem de ser mais do que alguém que escolhe convocados. Tem de ser alguém que constrói uma equipa. Tem de criar uma base, definir prioridades, estabelecer regras e fazer com que todos os jogadores acreditem no mesmo caminho.
Portugal não precisa apenas de talento. Isso já tem.
Precisa de identidade. Precisa de organização. Precisa de compromisso. Precisa de uma equipa que entre em campo sabendo exatamente o que quer fazer.
Acima de tudo, Portugal precisa de alguém que una os jogadores em torno de uma missão.
Paulo Gomes
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