As Doenças Inflamatórias do Intestino (DII), que incluem a Doença de Crohn e a Colite Ulcerosa, afetam milhares de pessoas em Portugal.

Estima-se que estas doenças afetem cerca de 25 mil pessoas, sobretudo adultos jovens, 25% dos quais em idade pediátrica, uma incidência que tem vindo a crescer, aproximando-se, por exemplo, da incidência dos países da Europa do Norte, que é das mais elevadas.
Embora a alimentação não seja a causa da DII nem possa desencadear a doença em pessoas saudáveis, desempenha um papel crucial na gestão dos sintomas e na qualidade de vida dos doentes. A alimentação adequada pode minimizar os sintomas, corrigir deficiências nutricionais e melhorar o estado geral de saúde dos doentes. No entanto, existe uma tendência para recorrer a dietas restritivas, o que pode ser prejudicial.
A dieta restritiva, com a exclusão de alimentos ricos em fibra, frutas, legumes ou laticínios, é frequentemente recomendada sem justificação científica sólida. A exclusão de certos grupos alimentares pode resultar em carências nutricionais graves, como a falta de vitaminas, minerais e fibras essenciais, que são vitais para o bom funcionamento do organismo. As fibras, por exemplo, são frequentemente mal compreendidas e evitadas. As fibras não absorvíveis presentes em alimentos como cereais integrais, frutas e vegetais têm um efeito positivo sobre o intestino, pois a sua fermentação pela flora bacteriana resulta na produção de ácidos gordos de cadeia curta, como o butirato, que é um nutriente essencial para as células da mucosa intestinal.
Outro alimento frequentemente evitado pelos doentes com DII é o leite e seus derivados. Embora alguns doentes tenham deficiência de lactase, a enzima responsável pela digestão da lactose, causando sintomas como flatulência, distensão abdominal e diarreia, a intolerância à lactose deve ser confirmada clinicamente ou por testes adequados, como o teste respiratório com hidrogénio. Quando a intolerância à lactose é confirmada, é aconselhável evitar o leite, mas os produtos fermentados, como iogurtes, podem ser tolerados, pois contêm lactase bacteriana que facilita a digestão da lactose.
A recomendação para os doentes com DII é seguir uma dieta equilibrada e diversificada, sem a necessidade de restrições desnecessárias. A exclusão de grupos alimentares essenciais pode levar a desequilíbrios nutricionais, como deficiências de micronutrientes, que enfraquecem o sistema imunológico e aumentam o risco de complicações.
Adicionalmente, apesar dos avanços significativos no tratamento, sobretudo com os fármacos biológicos subsistem dificuldades no acesso aos cuidados. O diagnóstico ainda demora, em média, dois anos. O acesso atempado a consultas de Gastrenterologia, exames como colonoscopias ou ressonâncias e a monitorização rigorosa da resposta terapêutica continua a ser um entrave grave. Esta realidade impede que se aproveite a janela terapêutica ideal que deve tão precocemente quanto possível, com prejuízo na eficácia dos tratamentos e risco acrescido de progressão para formas mais graves da doença.
A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) tem vindo a alertar para estas fragilidades e a promover a literacia em saúde digestiva, organizando ações de esclarecimento, formação de profissionais e campanhas de sensibilização. No âmbito do Dia Mundial das DII, assinalado a 19 de maio, reforça-se a urgência de um diagnóstico mais rápido, de um acesso mais equitativo e de um acompanhamento contínuo e multidisciplinar. Garantir uma resposta mais célere, acessível e informada é uma responsabilidade coletiva. Para mais informações consulte www.saudedigestiva.pt
Prof. Marília Cravo, gastrenterologista, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
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