Nada me perturba tanto quanto a distância entre palavras bonitas e ações reais. Fala-se de solidariedade, justiça social, participação… e, na prática, quase tudo fica por cumprir. É impossível não sentir revolta diante dessa hipocrisia, dessa facilidade em transformar valores sérios em meros adornos.

Estar ao serviço das pessoas não é um papel ocasional. É um compromisso diário, nos gestos pequenos e nas lutas maiores, não pela visibilidade, mas porque faz sentido… Dedicar-me às causas sociais e cívicas nunca foi uma estratégia ou um título, mas a forma que encontrei de viver com coerência, mesmo que nem sempre seja o caminho mais fácil. Se houvesse mais verdade, mesmo que dura, o mundo seria mais simples e justo. A sinceridade não precisa ser perfeita, basta ser autêntica. Já a hipocrisia, por mais polida que seja, deixa sempre um vazio: é uma sombra disfarçada de luz, uma máscara que cedo ou tarde cai. Fala-se da falta de mulheres na política, da igualdade e da representatividade. Mas, quando uma mulher ocupa o seu espaço, enfrenta desconfiança e crítica. Até entre mulheres, muitas vezes, se reproduz esse olhar de desvalorização. Em vez de reconhecimento, surgem barreiras, em vez de solidariedade, críticas fáceis. Parece existir um “lugar permitido” e quem o ultrapassa enfrenta condenação.
A política continua marcada por dogmas que dão mais peso a nomes e conveniências do que à capacidade e ao trabalho real. A dedicação de quem já deu provas é esquecida, o mérito apagado, porque o sistema prefere velhas fórmulas. A mudança só será verdadeira quando olharmos para as pessoas pelo que fazem, pela coragem, competência e entrega e não pelo género, pelo apelido ou pelo alinhamento com conveniências antigas.
Até lá, continuaremos a ouvir belas palavras sobre igualdade, enquanto a prática permanece incoerente. Mas há outro desafio silencioso: a forma como olhamos e tratamos os outros. De pouco serve falar em justiça social se, ao mesmo tempo, alimentamos intolerância em gestos do quotidiano. Não basta erguer bandeiras de igualdade sem respeitar a diferença, sem escutar o que é distinto do nosso pensamento, sem reconhecer a dignidade de cada pessoa. A verdadeira mudança não nasce apenas de programas, mas da coragem de praticar a tolerância essa capacidade de aceitar que o outro pode pensar e viver de forma diferente, e ainda assim merecer o mesmo respeito.
Como alerta o filósofo Byung-Chul Han em Infocracia, “a democracia só é possível quando há a disposição de ouvir o outro; sem escuta e respeito, ela degrada-se em mera aparência”.
Respeitar não é concordar sempre, é admitir que ninguém deve ser diminuído pela sua condição, escolhas ou lugar na sociedade.
Vivemos tempos em que é fácil falar mais alto, julgar rápido, rotular em segundos. Mas a política e a vida em comunidade só ganham sentido quando se constroem na escuta paciente, no reconhecimento mútuo, no cuidado com as palavras e os gestos. A justiça não floresce onde a intolerância se instala, e a solidariedade não cresce onde falta empatia.
Mais do que denunciar incoerências, importa cultivar o exemplo: ser coerente não apenas nas grandes causas, mas também no respeito quotidiano pelo outro.
A mudança que se exige ao sistema também se exige a nós, na forma como tratamos quem nos rodeia, na disposição para ouvir antes de condenar, na coragem de valorizar sem inveja e de apoiar sem reservas. Só assim, entre vozes e silêncios, poderemos transformar não apenas a política, mas também a convivência humana, tornando-a mais justa, verdadeira e, acima de tudo, respeitosa.
Claudia Marinho
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