Logo
Opinião

OPINIÃO: Cidadania e participação política: o perigo do afastamento

2 Agosto, 2024 | 11:55
Partilhar
Francisco Duarte Marques
4 min. leitura

A Democracia, em particular, no contexto europeu, pressupõe um conjunto de direitos e liberdades para os seus cidadãos, mas pressupõe também um conjunto de contrapartidas, ou seja, de deveres. Neste artigo, venho alertar para a importância de não negligenciar esses deveres de participação cívica, pois estou seguro de que todos nós podemos e devemos fazer mais pela construção de uma sociedade melhor.

De facto, a melhor parte da Democracia é, efetivamente, a liberdade. A liberdade para pensar, a liberdade para falar, a liberdade para sermos nós mesmos. Aliás, se no passado tantos heróis sacrificaram a sua vida a lutar pela conquista dessa mesma liberdade, não pode haver nada pior do que a sua ausência. Além disso, penso que a Democracia é a única forma de participação política digna. Dignidade essa que nos é assegurada pelos direitos humanos, e que, portanto, indica que só um regime de sufrágio universal constitui um presente e um futuro próspero para todas as nações. 

No segundo artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, houve a preocupação de elencar a universalidade do acesso aos direitos e liberdades consagrados na mesma, sem discriminação de qualquer natureza. Isso implica o respeito por cada indivíduo, independentemente do seu posicionamento ideológico. Deste modo, devemos ser tolerantes em relação a posicionamentos ideológicos distintos, mas rejeitar regimes que comprometam as liberdades fundamentais e violem os direitos humanos. 

Contudo, não podemos confundir liberdade com libertinagem. A liberdade não deve ser vista como um convite para agir sem limites. Devemos manter uma postura coerente com os valores fundamentais da democracia, como o direito ao voto. Este direito, que deveria ser um dever fundamental, tem sido negligenciado nos últimos tempos, como evidenciado pelo aumento das taxas de abstenção. É crucial transformar este direito num dever consciente. Participar ativamente nas eleições e noutros processos democráticos, não apenas honra os sacrifícios daqueles que lutaram pela nossa liberdade, mas também contribui para uma sociedade mais justa e democrática.  

A abstenção pode abrir espaço para movimentos extremistas, enquanto uma participação consciente fortalece a democracia e assegura um futuro mais próspero para todos. Podemos olhar para o século passado para ver que esta perspetiva não é inédita. O filósofo Isaiah Berlin, na sua obra “Dois Conceitos de Liberdade” (1958), explora a tensão entre a liberdade negativa e a liberdade positiva. Berlin argumenta que é essencial equilibrar a ausência de coerção externa com a capacidade de autorrealização para evitar tanto a libertinagem descontrolada quanto o autoritarismo excessivo. A liberdade negativa, que protege contra intervenções externas, e a liberdade positiva, que permite agir conforme a própria racionalidade, devem coexistir para preservar uma sociedade justa. Esse equilíbrio é fundamental para a democracia, permitindo que os indivíduos exerçam a sua autonomia pessoal enquanto se mantém a ordem social necessária para o bem comum. 

Ainda assim, uma das principais objeções à democracia é o medo de que, se não for adequadamente controlada, possa levar à libertinagem e comprometer a sua autenticidade. O caos gerado por corrupção, eleições manipuladas e instituições públicas desgastadas, pode favorecer o aparecimento de movimentos totalitários que prometem “restaurar a ordem”. Normalmente, estes movimentos são liderados por indivíduos com agendas radicais, mas que possuem uma oratória persuasiva, o que leva ao crescimento exponencial desses grupos. Pessoas insatisfeitas com uma democracia não coesa, podem ser atraídas por discursos populistas e demagogos. 

É evidente que tais regimes restringem e oprimem a população, retirando direitos e liberdades fundamentais. Essa perspetiva deve ser imediatamente desqualificada, pois, além de ser moralmente inaceitável, viola um dos direitos humanos mais fundamentais: a liberdade. Existem numerosos exemplos históricos e contemporâneos de regimes que se encaixam nesses padrões e que têm variantes tanto à esquerda quanto à direita. 

No campo dos extremismos de esquerda, destacam-se, atualmente, regimes como o de Cuba, sob Fidel Castro, e da Coreia do Norte, sob Kim Jong-un. Na extrema-direita, podemos recuar ao século XX e lembrar a ditadura fascista de Benito Mussolini ou a Espanha Franquista. Ambos os extremos possuem diferenças significativas: os movimentos de esquerda radical são caracterizados por um forte controlo estatal sobre a economia, abolição da propriedade privada e políticas de redistribuição para promover a igualdade social. Por outro lado, os movimentos radicais de direita tendem a preservar ou restaurar uma identidade nacional ou cultural, frequentemente com foco na hierarquia social e na autoridade centralizada. 

Embora estes extremos apresentem diferenças na forma como abordam questões económicas e sociais, ambos geram regimes autoritários e repressivos, refletindo o perigo que representam. Portanto, devemos adotar uma perspetiva moderada e, acima de tudo, democrática. Garantir a nossa liberdade é essencial, mas também devemos cumprir os nossos deveres cívicos, respeitando os princípios que regem o senso comum e a participação ativa na sociedade. 

Francisco Duarte Marques, Estudante.

Programas de Autor

Episódios Recentes Ver Mais

Notícias

Internacional 11 Agosto, 2026

ANTIPOP reúne 32 mil pessoas na edição comemorativa dos 20 anos

O ANTIPOP recebeu 32 mil pessoas no Forte de Santiago da Barra, em Viana do Castelo, entre 6 e 8 de agosto, numa edição especial dedicada aos 20 anos do festival de música eletrónica.

Regional 11 Agosto, 2026

Isabel Lima apresenta desfile inspirado na tradição minhota em Vila Mou

A designer Isabel Lima apresenta, esta quinta-feira, 13 de agosto, às 21h30, um desfile de moda no Adro da Igreja de Vila Mou, em Viana do Castelo.

Regional 11 Agosto, 2026

Casal que geriu histórica Pensão Vianense celebra 50 anos de casamento

José e Marinha, antigos proprietários da conhecida Pensão e Restaurante Vianense, celebram, esta sexta-feira, 14 de agosto, 50 anos de casamento. A cerimónia religiosa das Bodas de Ouro realiza-se na Sé de Viana do Castelo, com a presença de familiares e amigos.

Regional 11 Agosto, 2026

Estudantes de Medicina promovem saúde sexual no Festival Paredes de Coura

A Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) vai estar presente no Festival Vodafone Paredes de Coura, entre quarta-feira e sábado, de 12 a 15 de agosto, com uma campanha de sensibilização para a prevenção das infeções sexualmente transmissíveis (IST).

Regional 11 Agosto, 2026

Álcool ao volante lidera detenções da GNR no distrito de Viana do Castelo

A GNR deteve 23 pessoas em flagrante delito e detetou 294 infrações rodoviárias no distrito de Viana do Castelo, entre 3 e 9 de agosto.

Internacional 11 Agosto, 2026

Mil mulheres confirmadas no Desfile da Mordomia da Romaria d’Agonia

Paulo Carrança, presidente da Comissão de Festas da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia, fez o ponto da situação sobre as inscrições para os principais desfiles da edição deste ano, que decorrerá entre 15 e 23 de agosto, em Viana do Castelo.

Internacional 11 Agosto, 2026

CA Vilar de Mouros fecha cartaz para cinco dias de música

O Festival CA Vilar de Mouros anunciou os últimos oito nomes do cartaz da edição de 2026, que decorre entre 18 e 22 de agosto, no concelho de Caminha. A organização revelou também os horários dos espetáculos previstos para os cinco dias do evento.