Logo
Opinião

OPINIÃO: Aproximação da Hospitalização Domiciliária aos Cuidados de Saúde Primários

18 Setembro, 2025 | 10:25
Partilhar
Nuno Bernardino Vieira
4 min. leitura

O Núcleo de Estudos de Hospitalização Domiciliária da SPMI promove, nos dias 19 e 20 de setembro a 5.ª edição do Congresso Nacional de Hospitalização Domiciliária. Para além do congresso em si, este ano de 2025 fica ainda marcado pelos dez anos desde a admissão do primeiro doente em regime de Hospitalização Domiciliária em Portugal.

Desde então, já cerca de 60 mil doentes em todo o país tiveram acesso a esta modalidade assistencial. Foi sem dúvidas um crescimento exponencial, que provavelmente não encontra comparação na história do Sistema Nacional de Saúde português, que chega já hoje a todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde que contam com equipas dedicadas a este modelo de cuidados, e inclusivamente já com existência de unidades de hospitalização domiciliária em hospitais privados portugueses.

Parafraseando a Dra. Olga Gonçalves, coordenadora do Núcleo de Estudos de Hospitalização Domiciliária da SPMI, na nota de imprensa de apresentação do congresso: “completados dez anos desde a admissão do primeiro doente, é tempo de discutir e planear o percurso comum que queremos trilhar”, já se justifica uma reflexão crítica acerca do caminho trilhado, bem como das barreiras e desafios que temos pela frente num futuro próximo para manter a trajetória de crescimento e desenvolvimento da Hospitalização Domiciliária (HD) em Portugal.

Uma das áreas que identificamos como sendo uma área de melhoria a investir é precisamente a articulação da HD com os Cuidados de Saúde Primários (CSP), que na grande maioria das ULS portuguesas é ainda vestigial. Daí a escolha do tema para a conferência de abertura do congresso, para a qual convidámos a Dra. Raquel Chantre, vice-presidente da direção da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), com o intuito de conhecer a visão dos administradores hospitalares acerca da importância desta aproximação e da forma como esta deve ser conseguida, garantindo uma maior eficiência dos cuidados prestados a todos os utentes que são hospitalizados em casa.

Quando pensamos o modelo no qual o SNS se encontra atualmente organizado, assente em ULS que cobrem todo o território, o segredo para o sucesso terá que passar obrigatoriamente pela coordenação e integração de cuidados nos diferentes níveis de complexidade de serviços de saúde que são prestados à comunidade. Pelo seu cerne híbrido de levar o hospital até à casa de quem dele necessita, sendo um pilar na tão falada necessidade de ambulatorização de cuidados, a HD encerra em si esta urgência de coordenação e integração com os CSP.

Podemos definir como os dois momentos críticos, a admissão e a alta do doente em HD. Para além de conseguir levar o utente hospitalizado mais cedo para a sua casa, pretende-se ainda que, sempre que possível o nosso utente nem sequer passe pelo serviço de urgência e, idealmente, nem sequer pelo hospital.

É fundamental criar as condições para que o médico de medicina geral familiar, quer esteja a avaliar um utente numa USF, numa UCSP ou até numa UCC (Unidade de Cuidados na Comunidade), quando sentir a necessidade de o referenciar para eventual hospitalização, tenha as ferramentas necessárias para considerar a possibilidade de o referenciar diretamente para HD. Assim, é necessário definir e protocolar circuitos que permitam que as equipas de HD possam se deslocar a casa do utente e realizar uma consulta no seu domicílio para avaliar as condições clínicas e sociais que permitam o seu internamento em HD. Sublinha-se assim a importância de por um lado definir e protocolar estes circuitos, mas também a importância de sensibilizar os nossos colegas de medicina geral e familiar para esta possibilidade.

Igual importância a articulação de cuidados no momento da alta. A HD, pelo seu carácter abrangente e pela sua atuação na própria casa dos doentes, terá sem dúvida uma maior sensibilidade para a correta hierarquização dos problemas clínicos do doente no momento da alta, bem como para a adequada reconciliação terapêutica in loco, onde é possível por exemplo identificar as caixas de medicamentos que o doente toma inocentemente em duplicado. Para que este momento da alta seja ainda mais profícuo, falta-nos ainda nas situações identificadas como sendo mais complexas, como é o caso dos doentes mais idosos, com múltiplas comorbilidades e frequentes consumidores dos cuidados de saúde, criar as condições para que haja uma verdadeira passagem de testemunho. A figura da alta partilhada seria uma solução muito interessante a praticar, onde no momento da alta estivesse também presente na casa do doente a equipa dos CSP que o acompanha. Assim a orientação e o plano de seguimento do doente poderia ser discutido em conjunto e partilhado por ambas as equipas. Esta seria sem dúvida a real demonstração da aproximação que se pretende entre HD e CSP.

Deixei aqui apenas dois aspetos a explorar, mas existem certamente muitos outros que podem ser estruturantes para que se possa realmente aplicar o espírito integrativo de cuidados de saúde que se pretende no modelo das ULS. Aguardemos então com expetativa a conferência de abertura da Dra. Raquel Chantre para ouvirmos outras perspetivas sobre este tema.

Nuno Bernardino Vieira – Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

Programas de Autor

Episódios Recentes Ver Mais

Notícias

Cultura 29 Novembro, 2025

Exposição interativa sobre Amália Rodrigues patente em Viana do Castelo

Viana do Castelo recebe até 31 de dezembro a exposição gratuita “Ah Amália – Living Experience on tour”, dedicada à vida e obra de Amália Rodrigues. Instalado no Espaço Linha Norte, o evento está aberto ao público de terça a domingo, das 13h00 às 18h00.

Regional 29 Novembro, 2025

Município de Monção incentiva comércio local com a “Tômbola de Natal”

Pelo segundo ano consecutivo, o Município de Monção promove a valorização do comércio tradicional através da iniciativa “Tômbola de Natal”, que decorre até 24 de dezembro. Os clientes que realizarem compras nos estabelecimentos aderentes poderão habilitar-se a prémios variados.

Desporto 29 Novembro, 2025

Portugal derrota Montenegro e lidera Grupo B na qualificação para o Mundial

Portugal entrou com pé direito na qualificação para o Mundial de 2027, vencendo Montenegro por 83-62, no Moraca Sports Centre, em Podgorica. Foi a primeira vitória da seleção portuguesa sobre os montenegrinos, atualmente 18.º no ranking FIBA.

Regional 29 Novembro, 2025

Moradia em Portuzelo vai ser reconvertida em alojamento turístico para famílias com animais

O executivo municipal de Viana do Castelo aprovou a declaração de Interesse Municipal para um projeto de reabilitação e reconversão de uma moradia unifamiliar e anexos em Portuzelo, transformando-a num empreendimento turístico vocacionado para famílias com animais de estimação.

Regional 29 Novembro, 2025

Ponte da Barca recebe sessão sobre turismo fluvial

Ponte da Barca acolheu uma sessão dos Encontros Transfronteiriços e Workshops Formativos do projeto Red CIFT – Rede de Cruzeiros Ibéricos Fluviais Transfronteiriços, promovida pela CIM Alto Minho e pela Associação Galega de Actividades Náuticas (Agan+).

Internacional 29 Novembro, 2025

Amnistia alerta para retrocessos globais em direitos humanos

A Amnistia Internacional divulgou esta semana uma série de denúncias que revelam um agravamento preocupante da situação dos direitos humanos em várias regiões do mundo, da Europa ao Médio Oriente e ao continente africano.

Desporto 29 Novembro, 2025

Juventude Viana joga hoje em Valado dos Frades para a Taça de Portugal

A Juventude Viana defronta hoje, às 18h00, a Biblioteca Instrução e Recreio (BIR), no Pavilhão Amável dos Santos Pereira, em Valado dos Frades, em jogo dos 32 avos de final da Taça de Portugal. A deslocação ao distrito de Leiria representa o primeiro passo dos vianenses na edição desta época da prova-rainha.