Logo
Nacional

“Uma casa para cada Família”

1 Outubro, 2023 | 11:50
Partilhar
Eduarda Alves
6 min. leitura

Nota das comissões Justiça e Paz sobre a crise do acesso à habitação.

«Já o disse e repito-o: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer que Jesus nasceu num estábulo porque não havia lugar nas estalagens, que a sua família teve que abandonar a própria casa e fugir para o Egipto, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem casa, porque nunca a tiveram ou porque a perderam por diversos motivos. Família e casa caminham juntas! Mas um teto, para que seja um lar, deve ter também uma dimensão comunitária: o bairro, e é precisamente no bairro que se começa a construir esta grande família da humanidade, a partir daquilo que é mais imediato, da convivência com a vizinhança».

Discurso do Papa Francisco aos participantes no encontro de movimentos populares, 28 de outubro de 2014

As comissões Justiça e Paz abaixo elencadas, cientes da gravidade da situação atual do nosso país no que ao acesso à habitação diz respeito, querem dar um seu contributo para o diálogo, reflexão e ação em torno desta questão. Não pretendem indicar soluções concretas para um problema cuja complexidade não ignoram, mas alertar para a necessidade de uma visão completa do mesmo e salientar princípios que entendem dever servir de guia na busca dessas soluções.

Entendem, pois, que a questão da habitação não pode ser vista de forma isolada, nem de forma homogénea. Com essa perspetiva, parece-nos ser necessário estabelecer uma relação que seja frutuosa entre habitação (a casa, o alojamento), _habitat_ (o bairro, o lugar) e o “habitar” (o mundo humano e planetário), levando em conta a diversidade de situações e de grupos sociais envolvidos.

Entendemos também que o acesso a habitação deve ser analisado segundo três dimensões: o acesso a habitação em sentido restrito; o acesso a uma habitação condigna e o acesso a uma habitação adequada.

Quanto à negação do acesso à habitação, há que salientar três situações hoje existentes na sociedade portuguesa de gravidade crescente: a das pessoas sem abrigo que vivem na rua (sem teto); a das pessoas sem abrigo em alojamento temporário (sem casa) e das pessoas em alojamento temporário partilhado, em alguns casos em condições desumanas de sobrelotação (sobretudo imigrantes, mas também estudantes e outras). A estas três situações, juntam-se outras duas,
relacionadas com o risco ou com a concretização de interrupção do acesso à habitação atual: a dependência financeira grave (juros elevados de empréstimos bancários, taxas de esforço não suportáveis pelas famílias) e a “expulsão” direta (despejos; não renovação de _contratos_ de arrendamento) ou indireta (aumento não suportável do valor das rendas) do local de residência atual.

Quanto à negação do acesso a uma habitação digna, há que salientar: a ausência de infraestruturas básicas (saneamento), o mau ou péssimo estado de conservação física dos edifícios e a baixa qualidade da construção (pobreza energética, baixos níveis de conforto térmico).

Quanto à negação do acesso a uma habitação adequada, há que salientar: a desadequação entre dimensão do agregado e dimensão da casa (situações de superlotação); a desadequação entre as necessidades e/ou capacidades de idosos (sobretudo a viver sozinhos) e, em geral, de pessoas com necessidades sensoriais, físicas, intelectuais, emocionais ou sociais particulares e as características da habitação (rampas, degraus, tipo de piso, altura dos interruptores, etc.); e a desadequação entre a dimensão e organização da casa e o desempenho de uma maior diversidade de funções (por exemplo, o trabalho à distância a partir de casa).

No que diz respeito ao _habitat _(o bairro, o lugar), há que partir da noção de que existe um _continuum_ físico e vivencial entre a casa/apartamento, as partes comuns dos edifícios, os espaços públicos imediatamente envolventes (espaços de circulação, verdes, etc.) e os espaços de proximidade (jardins, comércio e serviços, equipamentos, transportes públicos). O _habitat_ (o bairro, o lugar) inclui dimensões urbanísticas, mas também de mobilidade, de acesso a bens e serviços básicos, de qualidade ambiental e de sociabilidade/inclusão social. O acesso ao lugar é, em parte, uma questão de planeamento urbano (urbanismo de proximidade / de base comunitária). Assiste-se a uma separação cada vez maior (distância-tempo) entre o local de residência e o local de trabalho/estudo, o que promove uma crescente dissociação entre habitação e lugar, com a consequente perda de espírito e sentimento de pertença ao lugar e o desenraizamento em relação à comunidade local. O direito ao lugar (por exemplo, como critério urbanístico, de realojamento, etc.) tem um reconhecimento social e político insuficiente.

No que diz respeito ao “habitar” (o mundo), é imperioso encarar este conceito, numa perspetiva de articulação com os dois anteriores: a habitação como espaço familiar, o _habitat_ como espaço comunitário e o “habitar” como exercício vital da família humana que corresponde a uma vida humana plena e digna, ao desenvolvimento humano integral.

Partindo deste diagnóstico e desta visão tão ampla e abrangente da questão, recordamos brevemente alguns princípios da doutrina social da Igreja que podem guiar-nos na busca de respostas à crise do acesso à habitação, que atinge hoje entre nós uma inédita gravidade.

O direito à habitação é um direito fundamental da pessoa e da família. «_Família e casa caminham juntas_» – afirma o Papa Francisco. Sem acesso à habitação está comprometida a integral realização da pessoa e não será possível a formação de jovens famílias que enfrentem o também grave problema da queda da natalidade.

Há que respeitar o direito de propriedade privada sem esquecer a função social desta. Tal significa que o respeito do
direito de propriedade privada deve facilitar a concretização do direito à habitação do seu titular e sua família, mas facilitar também (e não impedir ou limitar) o exercício do direito à habitação de outras pessoas. Isso ocorrerá através do arrendamento a preços justos e não especulativos.

Na legislação e nas opções políticas, há que ter presentes os princípios da solidariedade e da subsidiariedade. Tal significa que não pode esperar-se da autonomia do mercado a completa solução do problema, mas o mesmo deverá dizer se da intervenção do Estado. Impõe-se essa intervenção para suprir as imperfeições do
mercado, que hoje se revelam notórias, sem a pretensão de o substituir. Há que apoiar de várias formas iniciativas neste campo do setor social e cooperativo.

A busca de respostas concretas envolve questões técnicas que, na sua complexidade, nos ultrapassam. O que queremos nesta nota salientar é, acima de tudo, a necessidade de, face à extrema gravidade do problema, encontrar tais respostas de modo prioritário e urgente, apoiadas no diálogo, na concertação e no estabelecimento de compromissos claros e duradouros. Como sempre, manifestamos a nossa disponibilidade para dar o nosso contributo nesse sentido.

Lisboa, 26 de setembro de 2023

A Comissão Nacional Justiça e Paz

A Comissão Diocesana Justiça e Paz do Algarve

A Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz de Braga

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Bragança-Miranda

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Lamego

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Leiria-Fátima

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Portalegre-Castelo Branco

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Santarém

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Viana do Castelo

A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Vila Real

CNJP – Comissão Nacional Justiça e Paz e Conferência Episcopal Portuguesa.

Programas de Autor

Episódios Recentes Ver Mais

Notícias

Regional 30 Abril, 2026

Remodelação de redes de abastecimento reforça eficiência hídrica no Alto Minho

A Águas do Alto Minho adjudicou um conjunto de obras de remodelação das redes de abastecimento de água em seis municípios do Alto Minho, num investimento global de cerca de 700 mil euros. A iniciativa tem como principal objetivo reforçar a eficiência, fiabilidade e qualidade do serviço prestado às populações.

Nacional 30 Abril, 2026

Politécnico de Viana do Castelo lança primeiro doutoramento em ano de aniversário da ESDL

A Escola Superior de Desporto e Lazer, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, celebra 15 anos de atividade com o anúncio do seu primeiro doutoramento, reforçando o seu posicionamento no ensino superior e na investigação na área das Ciências do Desporto.

Regional 30 Abril, 2026

Viana Florida arranca com montagem de arranjos florais no centro histórico

Viana do Castelo dá início à edição deste ano da Viana Florida com a confeção e instalação dos primeiros arranjos florais de média dimensão no centro histórico.

Nacional 30 Abril, 2026

Viana do Castelo com 176 casos de condução sem carta em 2025

O número de crimes de condução sem habilitação legal voltou a aumentar em 2025, segundo dados divulgados pela Guarda Nacional Republicana (GNR). No total, foram registadas 7.525 ocorrências em todo o país, representando um crescimento de 9,29% face a 2024.

Regional 30 Abril, 2026

Debate sobre guerras e impacto social reúne especialistas no Teatro Sá de Miranda

O Teatro Sá de Miranda acolhe, esta quinta-feira, 30 de abril, pelas 21h30, uma mesa-redonda subordinada ao tema “Nas guerras dos ricos morrem os pobres”. A iniciativa terá lugar no Café Concerto daquele espaço cultural e contará com a participação de diversas personalidades de áreas distintas.

Regional 29 Abril, 2026

Ponte de Lima coloca Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil em consulta pública

O Município de Ponte de Lima colocou em consulta pública a proposta do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil, documento estratégico que define a organização e resposta operacional em situações de risco e emergência no concelho.

Regional 29 Abril, 2026

APPACDM de Viana do Castelo conquista Taça Nacional de Ciclismo da ANDDI

A APPACDM de Viana do Castelo sagrou-se vencedora da 24.ª Taça Nacional de Ciclismo da ANDDI, cuja prova decorreu no passado dia 26 de abril de 2026, integrada na etapa de Paredes do Grande Prémio de Ciclismo O Jogo.