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OPINIÃO: Estratégia em defesa do Jornalismo Regional

13 Julho, 2025 | 16:25
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José Vieira
6 min. leitura

Conforme prometido no meu artigo anterior, hoje falarei da estratégia para se combater este ataque sistemático que é feito à imprensa regional, desde que somos uma democracia plena de direitos, ou melhor dizendo, desde o 25 de abril de 1974.

Importa referir para enquadrar algum histórico de protestos semelhantes, que raras vezes o jornalista ou o jornalismo saiu à rua e protestou. Isso aconteceu 2 ou 3 vezes, com redações de jornais nacionais com planos de encerramento/remodelação ou com protestos ao nível salarial (ordenados em atraso). E estas ações de protesto nunca miraram a tutela, mas sim as chefias. Importa agora também referir que a imprensa regional nunca, mas nunca criou ou participou em alguma espécie de protesto coletivo, que visasse demonstrar a sua insatisfação ao governo.

A função da imprensa regional é acompanhar o dia a dia do seu povo, divulgando as suas atividades, as suas alegrias e tristezas, sendo os primeiros a chegar às tragédias que se vivem, sendo roubados pelos órgãos nacionais nos textos, vídeos e imagens que criam. E são também os principais veículos de informação da nossa diáspora. Na altura de se decidirem apoios, são sempre relegados para último e poucas migalhas conseguem alcançar do repasto dos ricos jornais nacionais.

E chegou a altura de nas próximas semanas/meses, começarmos a desenhar uma espécie de bloco central estruturado, que vise informar o governo que a imprensa regional anda aqui há muitos anos (muito antes do 25 de abril), sempre fez um trabalho extraordinário, noticiando localmente o que as populações precisam de saber, substituindo-se aos jornais nacionais que noticiam menos de 1% das realidades regionais. E quando o fazem são quase sempre notícias de faca e alguidar, que é efetivamente o que vende e dá “gostos” no Facebook.

Ressalvo que não pretendo com este artigo incitar a nenhuma ação de protesto que não se enquadre no estrito respeito pelo direito à integridade física e intelectual, de pessoas e bens, sempre na defesa de uma ação elevadora e acima de qualquer crítica. Contudo, precisamos de pensar em soluções mais musculadas, em termos intelectuais, para passar a ideia de que iremos lutar, doe a quem doer.

Enquadrada que está a necessidade de lutarmos (pela primeira vez), urge perceber como o podemos fazer. Já percebemos que não vamos a lado nenhum com esta passividade a que nos sujeitamos. Então, e partindo do princípio em que nada perderemos, ou não perderemos mais, pois a continuação deste marasmo vais-nos levar ao fecho das nossas publicações, só temos a alternativa de lutar, e tudo a ganhar. Já perdemos o que tínhamos a perder.

E numa primeira ideia, pois não sou profissional de protesto (que os há), é justo dizer-se que temos connosco, em cada jornal em que trabalhamos, a espada certa para arrepiar caminho. A nossa caneta! Há que abrir rúbricas por esta imprensa regional, de norte a sul do país, e começarmos todos a escrever colunas de opinião que visem denunciar este plano que está em curso há muito tempo, de apertar o pescoço aos órgãos de comunicação regionais. Há que divulgar, massivamente, sem medos de retaliação. Quem nada aufere do poder, nada pode perder. Muitos de nós aguardam o regresso de São Sebastião, mas ele não volta mais. Morreu, está enterrado e cabe-nos a nós armarmos os nossos cavaleiros para as batalhas que se avizinham.

Mas escrever artigos a denunciar esta situação basta? Não, não basta. Há que encontrar uma base de inteligência, que pode ter como quartel-general uma das associações de imprensa existentes, ou todas, bastando haver vontade de cooperação entre as existentes, e a partir daí desenhar outras ferramentas. Não podemos esquecer que a imprensa regional é líder de audiências em Portugal, se estivermos unidos. Bastam 23% das publicações regionais para atingirmos 10 milhões de pessoas mais a diáspora em que somos mais 5 milhões lá fora e onde existem dezenas de órgãos de comunicação, tutelados por Portugal, equiparados aos nossos jornais regionais, com as mesmas dificuldades que nós sentimos. Os outros 77% são redundantes. Ou seja, em suma, temos uma força editorial e uma capacidade de penetração nos diversos públicos, nacionais e na diáspora, extraordinária, em que os nacionais só sonham.

Então o que tem corrido mal? A nossa desunião! Nunca fomos unidos, as nossas associações de imprensa nunca protagonizaram grandes mudanças ou mesmo tiveram posições de grande força, e fomos andando, esperando por quem nunca virá, fechando aqui e ali, definhando e esmorecendo. Ora, isto não tem de ser assim. Pode ser diferente, se tivermos a coragem de dar força ao setor e participarmos ativamente na construção de uma força que efetivamente obrigue o governo a olhar para este setor com outros olhos. Atualmente, a maioria dos nossos representantes associativos limita-se a ser informado pela tutela das regras/apoios e pouco mais fazem para melhorar as propostas. Mandam uns e-mails, sugerem a correção de algumas alíneas, fazem umas reuniões e aceitam passivamente o que lhes é oferecido. Basta. Há que inverter esta estratégia, há que informar a tutela que acabou o tempo de andarem a brincar connosco. A brincadeira vai-lhes custar muitas dores de cabeça, se continuam nesta direção. Podemos e devemos informar os 15 milhões de portugueses a que teoricamente abrangemos, de que algo de podre se passa nesta república. Com esta constância noticiosa, informando e formando os nossos leitores de que a primeira força de defesa da democracia está ameaçada pelos interesses de alguns escroques e corruptos, podemos começar a inverter esta tendência de nos quererem subjugar, apertando cada vez mais o cerco e criando condições de trabalho inatingíveis para a maioria dos nossos órgãos de comunicação regionais.

O que aí vem nos próximos meses não é bom, vai delapidar o nosso setor, e vamos, dentro de meia dúzia de meses, ser cada vez menos. Alguns de nós irão sobreviver porque têm uma dimensão regional robusta, e vão tomar conta deste setor. Os outros, que têm as suas quotas de leitores (sendo muitos destes títulos centenários) vão fechar porque não têm as mínimas condições de permanecer no mercado, com regras tão apertadas.

Por isso, insto a que todos nós, colegas de profissão e leitores, se juntem e defendam o jornalismo regional. Há que fazer um novo 25 de abril. Há que escrever até à última gota de tinta das nossas canetas e depois, marchar, marchar, marchar…

José Vieira, Jornalista. Presidente da Assembleia Geral da APMEDIO, Associação Portuguesa dos Média Digitais Online.

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