O Núcleo de Estudos de Hospitalização Domiciliária da SPMI promove, nos dias 19 e 20 de setembro a 5.ª edição do Congresso Nacional de Hospitalização Domiciliária. Para além do congresso em si, este ano de 2025 fica ainda marcado pelos dez anos desde a admissão do primeiro doente em regime de Hospitalização Domiciliária em Portugal.

Desde então, já cerca de 60 mil doentes em todo o país tiveram acesso a esta modalidade assistencial. Foi sem dúvidas um crescimento exponencial, que provavelmente não encontra comparação na história do Sistema Nacional de Saúde português, que chega já hoje a todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde que contam com equipas dedicadas a este modelo de cuidados, e inclusivamente já com existência de unidades de hospitalização domiciliária em hospitais privados portugueses.
Parafraseando a Dra. Olga Gonçalves, coordenadora do Núcleo de Estudos de Hospitalização Domiciliária da SPMI, na nota de imprensa de apresentação do congresso: “completados dez anos desde a admissão do primeiro doente, é tempo de discutir e planear o percurso comum que queremos trilhar”, já se justifica uma reflexão crítica acerca do caminho trilhado, bem como das barreiras e desafios que temos pela frente num futuro próximo para manter a trajetória de crescimento e desenvolvimento da Hospitalização Domiciliária (HD) em Portugal.
Uma das áreas que identificamos como sendo uma área de melhoria a investir é precisamente a articulação da HD com os Cuidados de Saúde Primários (CSP), que na grande maioria das ULS portuguesas é ainda vestigial. Daí a escolha do tema para a conferência de abertura do congresso, para a qual convidámos a Dra. Raquel Chantre, vice-presidente da direção da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), com o intuito de conhecer a visão dos administradores hospitalares acerca da importância desta aproximação e da forma como esta deve ser conseguida, garantindo uma maior eficiência dos cuidados prestados a todos os utentes que são hospitalizados em casa.
Quando pensamos o modelo no qual o SNS se encontra atualmente organizado, assente em ULS que cobrem todo o território, o segredo para o sucesso terá que passar obrigatoriamente pela coordenação e integração de cuidados nos diferentes níveis de complexidade de serviços de saúde que são prestados à comunidade. Pelo seu cerne híbrido de levar o hospital até à casa de quem dele necessita, sendo um pilar na tão falada necessidade de ambulatorização de cuidados, a HD encerra em si esta urgência de coordenação e integração com os CSP.
Podemos definir como os dois momentos críticos, a admissão e a alta do doente em HD. Para além de conseguir levar o utente hospitalizado mais cedo para a sua casa, pretende-se ainda que, sempre que possível o nosso utente nem sequer passe pelo serviço de urgência e, idealmente, nem sequer pelo hospital.
É fundamental criar as condições para que o médico de medicina geral familiar, quer esteja a avaliar um utente numa USF, numa UCSP ou até numa UCC (Unidade de Cuidados na Comunidade), quando sentir a necessidade de o referenciar para eventual hospitalização, tenha as ferramentas necessárias para considerar a possibilidade de o referenciar diretamente para HD. Assim, é necessário definir e protocolar circuitos que permitam que as equipas de HD possam se deslocar a casa do utente e realizar uma consulta no seu domicílio para avaliar as condições clínicas e sociais que permitam o seu internamento em HD. Sublinha-se assim a importância de por um lado definir e protocolar estes circuitos, mas também a importância de sensibilizar os nossos colegas de medicina geral e familiar para esta possibilidade.
Igual importância a articulação de cuidados no momento da alta. A HD, pelo seu carácter abrangente e pela sua atuação na própria casa dos doentes, terá sem dúvida uma maior sensibilidade para a correta hierarquização dos problemas clínicos do doente no momento da alta, bem como para a adequada reconciliação terapêutica in loco, onde é possível por exemplo identificar as caixas de medicamentos que o doente toma inocentemente em duplicado. Para que este momento da alta seja ainda mais profícuo, falta-nos ainda nas situações identificadas como sendo mais complexas, como é o caso dos doentes mais idosos, com múltiplas comorbilidades e frequentes consumidores dos cuidados de saúde, criar as condições para que haja uma verdadeira passagem de testemunho. A figura da alta partilhada seria uma solução muito interessante a praticar, onde no momento da alta estivesse também presente na casa do doente a equipa dos CSP que o acompanha. Assim a orientação e o plano de seguimento do doente poderia ser discutido em conjunto e partilhado por ambas as equipas. Esta seria sem dúvida a real demonstração da aproximação que se pretende entre HD e CSP.
Deixei aqui apenas dois aspetos a explorar, mas existem certamente muitos outros que podem ser estruturantes para que se possa realmente aplicar o espírito integrativo de cuidados de saúde que se pretende no modelo das ULS. Aguardemos então com expetativa a conferência de abertura da Dra. Raquel Chantre para ouvirmos outras perspetivas sobre este tema.
Nuno Bernardino Vieira – Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
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