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Opinião

OPINIÃO: A nossa “agonia”

14 Agosto, 2026 | 11:55
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Paulo Gomes
4 min. leitura

Está quase a chegar aquela a que os vianenses, com orgulho e sem exagero nenhum, chamam a maior romaria do mundo e arredores: a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia.

Durante vários dias, Viana transforma-se. As ruas enchem-se de cor, música, tradição e gente. Muita gente. Regressam os vianenses que vivem longe, chegam visitantes de todo o mundo e a cidade mostra aquilo que tem de melhor.

E também aquilo que nunca falha: a crítica.

Organizar uma festa deste tamanho é cada vez mais complicado. O número de visitantes aumenta todos os anos, mas a cidade, teimosamente, continua do mesmo tamanho.

É preciso tratar do trânsito, da segurança, da limpeza, dos transportes, do estacionamento, do comércio, dos espetáculos e das cerimónias religiosas. Tudo isto sem estragar as tradições, recebendo bem quem chega e tentando agradar a toda a gente. Coisa fácil. Quem acha que é simples, que tente primeiro organizar um almoço de família sem ninguém se chatear.

O vianense gosta de criticar. É a sua forma pouco delicada de mostrar que está atento e que se importa. Muito atento. Às vezes até demais.

Criticamos a Câmara, as obras, o trânsito, o cartaz, os horários e o preço das farturas. Criticamos quem vem porque enche a cidade e quem não vem porque a Romaria já não é o que era.

Se cortam o trânsito, ninguém passa. Se não cortam, aquilo é uma selva. Se o programa é parecido com o do ano anterior, é sempre a mesma coisa. Se muda, estão a acabar com a tradição. Se contratam um artista conhecido, é dinheiro mal gasto. Se ninguém o conhece, perguntamos onde foram buscar aquele desgraçado.

Se o estacionamento fica longe, é uma vergonha. Se deixam os carros entrar no centro, é outra vergonha. O importante é haver vergonha.

Criticamos o emigrante porque vem armado em rico. Se não vem, é porque afinal é um pobre como nós. Se a fartura está cara, é um roubo. Se está barata, desconfiamos do óleo.

Seja qual for a decisão, o vianense encontra sempre uma alternativa melhor. Normalmente, cinco minutos depois de tudo estar feito.

Mas há uma regra sagrada: só o vianense pode criticar Viana.

Ai de alguém de fora que se atreva a dizer mal da cidade ou da Romaria. Aquilo que estava péssimo há cinco minutos passa logo a estar impecável. Os vianenses unem-se e Viana volta a ser a melhor cidade do mundo e arredores.

Nada nos junta mais do que aparecer alguém de fora a criticar aquilo de que passámos o ano inteiro a dizer mal.

É uma contradição? É, mas é nossa. E ninguém tem nada a ver com isso.

Todos temos o direito de criticar. Vivemos numa democracia e essa liberdade deve ser defendida, mesmo quando certas opiniões parecem ter sido escritas antes de o cérebro começar a trabalhar.

Mas não confundamos crítica com maledicência. A crítica aponta um problema e tenta encontrar uma solução. A maledicência aponta o dedo, lança a suspeita e fica a apreciar o estrago. Uma precisa de factos. A outra dispensa-os, porque só atrapalham uma boa história.

Há críticas com fundamento que ajudam a corrigir erros. Outras não apresentam soluções e servem apenas para provar que o acesso à internet continua demasiado fácil.

Antes de acusarmos ou escrevermos, convém conhecer os factos e perceber as dificuldades. Estamos a ajudar a resolver alguma coisa ou apenas a fazer barulho?

Barulho? Gosto do que fazem os bombos. Tem ritmo e não é tão chato como o dos heróis do teclado.

Ninguém está acima da crítica. Mas também é justo reconhecer o trabalho necessário para receber tanta gente numa cidade cujas ruas ainda não aprenderam a alargar-se sozinhas e onde até o tempo insiste em não respeitar o programa oficial.

A Romaria passará, como todos os anos. Haverá grandes momentos, falhas, elogios e pequenos dramas tratados como se fossem o fim do mundo. No fim, estaremos todos vivos. Esperemos nós.

E ficarão as memórias: a cidade cheia, as ruas decoradas, a música, os encontros, uma tradição que passa de geração em geração, o lixo amontoado, ruas a cheirar a urina, carros estacionados nos telhados, sovacos medievais e chicos-espertos armados em burros.

Em suma, e como diz o outro: “Espetáculo!”

Bonito? Nem tudo. Autêntico? Completamente.

Costuma dizer-se que a vida são dois dias. Portanto, quando é que aprendemos a relativizar?

Mesmo que cheguemos aos 80 anos, viveremos pouco mais de quatro mil semanas. Muitas já passaram. Outras foram gastas a trabalhar, a dormir, a esperar e a discutir com desconhecidos na internet. E depois ainda dizemos que não temos tempo para nada.

Se isso não vos assusta nem vos impele a viver da melhor forma possível, sem perder tempo com conices e merdices, confesso que tenho algum medo de vocês.

Por Paulo Gomes

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