Escolho o futebol como ponto de partida porque é talvez o exemplo mais visível. É visto por todos, comentado por todos e vivido com uma intensidade muito própria. Mas o tema não é apenas o futebol. O futebol é só o espelho de algo que atravessa a nossa vida em sociedade: a facilidade com que encontramos desculpas e a dificuldade que temos em assumir responsabilidades.

Quando os campeonatos se aproximam do fim, começa o tempo dos balanços. Uns festejam, outros analisam, outros procuram explicar o que correu mal.
No futebol, essa explicação aparece muitas vezes antes da análise.
O jogador culpa o treinador porque não joga ou porque joga fora da sua posição.
O treinador culpa o árbitro, o calendário, as lesões ou a falta de soluções no plantel.
O diretor culpa o treinador porque a equipa não ganha.
O treinador culpa a direção porque não teve ajuda suficiente.
A direção culpa o orçamento, os adversários ou a falta de apoio externo.
No fim, todos têm uma explicação. Mas nem sempre existe uma verdadeira autoanálise.
E isto não acontece só no futebol. Acontece no trabalho, nas empresas, na política, nas escolas, nas famílias e nas relações pessoais. Quando alguma coisa falha, procuramos muitas vezes primeiro quem culpar. Muito raramente pensamos no que podíamos ter feito melhor.
Tive um treinador que repetia uma frase simples: “Não arranjes desculpas, encontra soluções.”
Na altura era apenas uma frase de balneário. Com o tempo, percebe-se que era muito mais do que isso. Era uma forma de estar.
Desculpas há sempre. Faltou sorte, faltaram condições, fomos prejudicados, não dependia de nós, os outros falharam. E, por vezes, até é verdade. Nem tudo depende de nós.
Mas o problema começa quando usamos essas razões para fugir à pergunta principal: Onde começa e acaba a minha responsabilidade?
Esta pergunta custa. Obriga-nos a olhar para dentro e a admitir que talvez pudéssemos ter feito mais, preparado melhor, decidido de outra forma ou reagido com mais competência.
A desculpa alivia no momento, mas raramente resolve alguma coisa. Enquanto a responsabilidade estiver sempre fora de nós, também a solução estará sempre longe.
No futebol, como na vida, há sempre dois caminhos: procurar uma desculpa que nos deixe confortáveis ou procurar uma solução que nos obrigue a crescer.
O primeiro é mais fácil.
O segundo é mais exigente.
Mas só o segundo nos leva a algum lado.
Porque, enquanto a culpa morar sempre nos outros, dificilmente encontraremos a solução.
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