Logo
Opinião

OPINIÃO: A coisa de Estado e o estado da Coisa

8 Fevereiro, 2024 | 11:40
Partilhar
Miguel Sá
4 min. leitura

Nas últimas décadas da Democracia portuguesa, entre as grandes vitórias do Estado Social e os vários erros estratégicos de governação, promovidos pela “caça ao voto” e pelo jogo de interesses partidários, tornou-se cada vez mais difícil compreender o que é essa coisa de Estado. Para além disso, tornou-se também cada vez mais impercetível qual o seu papel na vida de cada pessoa, de cada coletividade e, sobretudo, qual o seu papel na vida da sociedade portuguesa em geral. Posto isto, o presente artigo consiste numa reflexão sobre o que é o Estado, contrastando aquele que deveria ser o seu papel, face àquela que tem sido a sua atuação nos últimos anos.

Tradicionalmente, o conceito de Estado deriva da presença de três elementos conjugados: o território, a população e o aparelho de poder. Muitas vezes, o conceito é confundido com o termo Nação, mas a ideia de Nação é algo mais afetivo, um sentimento de identidade, de pertença. Assim, o Estado pode ser visto como o conjunto de instituições públicas que rege o território onde habita uma determinada população. Porém, a questão que se levanta é: Para que serve isto? 

É muito simples, se o Estado regula um território e a população que lá reside, cobrando impostos para isso, a sua existência justifica-se através da promoção do bem-estar geral dessa mesma população, ou seja, aquilo que designamos por Interesse Público. Contudo, apesar de muito evocado, este conceito é muitas vezes utilizado em jogos de retórica devido à sua subjetividade. Então o que deve, ou não, o Estado fazer para promover o Interesse Público?

Na sua dimensão externa, com algumas nuances, há um consenso alargado que o papel do Estado é garantir a existência de um corpo diplomático, para promover boas relações políticas e comerciais com outros Estados, e garantir a existência de um exército para salvaguardar a segurança da população e a soberania do aparelho de poder. 

Todavia, é sobre a dimensão interna que há uma maior contestação sobre qual o papel do Estado na vida das pessoas, dando origem àquilo que conhecemos como “Ideologias Políticas”. Neste ponto, uma maior intervenção do Estado na vida privada é comummente associada a ideologias de esquerda, e uma menor intervenção mais associada a ideologias de direita. No entanto, como este espectro político tornou-se limitado para traduzir a crescente complexidade e heterogeneidade social, adotou-se um referencial cartesiano para espelhar o posicionamento ideológico. No eixo das abcissas (x), lemos o posicionamento económico, entre a esquerda e a direita, e no eixo das ordenadas (y), lemos o posicionamento social, entre o conservadorismo e o liberalismo.

Entre aqueles que acreditam que o Estado deve deter e fazer tudo, e aqueles que acreditam que o Estado deve ser muito reduzido e limitado, eu, pessoalmente, penso que no meio está a virtude. Acredito que o Estado é fundamental, mas deve ser visto como um mal necessário. Isto, porque as pessoas que controlam o Estado – os governantes – são pessoas ditas “racionais” que têm interesses próprios e, portanto, tendencialmente vão corromper-se. Consequentemente, defendo que o Estado deve ser forte, tanto no campo económico, como no campo social, mas com uma atuação transparente e equilibrada em termos de custo-benefício para a população. 

Contrariamente, em Portugal, entre várias décadas de erros e remendos, o Estado tornou-se uma máquina gigante de acomodação de interesses das elites políticas e económicas. Os governos têm instrumentalizado o Interesse Público para favorecer os seus círculos, através da criação dos famosos “tachos e tachinhos”, investindo o dinheiro dos contribuintes em negócios ruinosos. Por outras palavras, neste momento, o Estado português é uma espécie de canalização de grande envergadura, onde as diversas tubagens estão desconexas uma das outras e a verter água por todo lado. Há dinheiro para resgates à banca, há dinheiro para derreter em negócios como a TAP e a EFACEC, e há dinheiro para alimentar muitas outras entidades do setor empresarial do Estado que a maioria da população desconhece e cujas remunerações são um verdadeiro insulto para os contribuintes.

Em contrapartida, os Serviços Públicos essenciais estão o caos. As Forças de Segurança continuamente em protestos, devido às desigualdades, às remunerações miseráveis, à falta de atratividade das carreiras e à falta de condições de trabalho. A Justiça continua absurdamente lenta, levando à relutância das empresas portuguesas e estrangeiras em investir no nosso país. Na Educação não há professores e instalou-se uma cultura de facilitismo. Na Saúde, por sua vez, vemos as Urgências encerradas por falta de médicos, listas de espera infindáveis e jornadas de trabalho ilegais. Em suma, aquilo que é essencial para que as pessoas possam construir o seu projeto de vida, não funciona.

Não é necessário referir quem tem suportado esta distopia. O facto de termos a maior carga fiscal de sempre e um dos maiores esforços fiscais da Europa, espelha bem essa realidade. Um país pouco atrativo para as pessoas e para as empresas, e que deixa fugir quem mais cria e quem mais quer criar valor no nosso país.

Posto isto, questiono-me:

Deveria o Estado brincar aos empresários com o dinheiro dos contribuintes?

Qual o retorno destes negócios “estratégicos” para as pessoas?

Dada a nossa realidade, penso que o Estado português deve focar-se nas suas funções reguladora e fiscalizadora, na prestação de Serviços Públicos essenciais de qualidade, e apenas intervir na Economia quando não existe um mercado de concorrência funcional, como por exemplo, o mercado da Habitação. Deste modo, a atuação do Estado seria mais transparente, as carreiras públicas mais atrativas e prestigiantes, e o esforço fiscal das famílias mais baixo.

Concluindo, se o futuro Governo optar por uma atuação mais focalizada, e aproveitar os enormes envelopes financeiros da União Europeia para avançar com obras públicas estratégicas que promovam a coesão territorial, ainda é possível voltarmos a ser um país atrativo, em especial, para os jovens.

Por: Miguel Sá

Consultor Empresarial

Presidente da JSD de Viana do Castelo

 

 

Programas de Autor

Episódios Recentes Ver Mais

Notícias

Desporto 29 Novembro, 2025

Santa Luzia FC participa nas comemorações do Centenário do SC Maria da Fonte

O Santa Luzia Futebol Clube, emblema de Viana do Castelo e referência nacional no futsal feminino, vai marcar presença nas comemorações do Centenário do Sport Clube Maria da Fonte, associando-se ao programa oficial através da realização de um encontro de futsal feminino.

Regional 29 Novembro, 2025

PSP reforça segurança durante “Viana Coração do Natal”

A cidade de Viana do Castelo prepara-se para receber, de 5 de dezembro de 2025 a 5 de janeiro de 2026, a iniciativa “Viana Coração do Natal”, que promete encher o centro histórico de cor, animação e atividades para todas as idades.

Nacional 29 Novembro, 2025

Pombal é hoje palco do Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional

A comunicação social de proximidade reúne-se hoje, 29 de novembro, em Pombal, para participar no Encontro Nacional da Comunicação Social Local e Regional, uma iniciativa da Associação Nacional de Imprensa Regional (ANIR) que pretende lançar um olhar crítico e estratégico sobre o futuro do jornalismo local em Portugal.

Regional 29 Novembro, 2025

Ligar das Luzes inaugura Natal em Vila Nova de Cerveira

O Natal em Vila Nova de Cerveira começa oficialmente este sábado, 29 de novembro, com o tradicional Ligar das Luzes, marcado para as 19h00 no centro histórico.

Regional 29 Novembro, 2025

“Yoga em Ti” chega à Biblioteca de Valença para crianças

Este sábado, 29 de novembro, às 10h30, a Biblioteca Municipal de Valença convida famílias e crianças a participarem da atividade “Yoga em Ti”, especialmente pensada para crianças dos 3 aos 12 anos.

Regional 28 Novembro, 2025

Viana do Castelo estreia “Largo do Chocolate” na programação de Natal

O Largo Maestro José Pedro recebe, pela primeira vez, o Largo do Chocolate, uma das grandes novidades da programação “Viana Coração do Natal”.

Regional 28 Novembro, 2025

Eco Albergue vai nascer em Castelo do Neiva para peregrinos do Caminho de Santiago

A Câmara Municipal de Viana do Castelo aprovou a declaração de Interesse Municipal para o Eco Albergue do Neiva, um novo empreendimento turístico a instalar em Castelo do Neiva, destinado a responder às crescentes necessidades dos peregrinos do Caminho de Santiago.