Logo
Regional

Em Riba de Mouro fala-se ribamourês, com orgulho

23 Abril, 2024 | 12:02
Partilhar
Viana TV
5 min. leitura

O dialeto Ribamourês ainda é o que se fala em Riba de Mouro, Monção, e um livro sobre o tema resgatou o orgulho dos habitantes no linguajar “parecido com o galego”, numa aldeia que é uma viagem no tempo.

“A Espanha cerca-nos aqui por trás daquela montanha até Chaves. Convivemos muito com os espanhóis. E quando foi da guerra da Espanha, havia muitos espanhóis a viver aqui. Falamos o galego da Galiza, não é o verdadeiro espanhol. Por exemplo, vou-lhe dizer: ‘Tenho uma tchavi’. Sabe o que é? É uma chavi. Uma chave, de uma porta”, explicou à Lusa Agostinho Esteves, de 79 anos, residente na freguesia mais distante da vila de Monção (mais de 20 quilómetros e de 30 minutos), no distrito de Viana do Castelo.

Alda Barreiros, que com a amiga Maria Alves escreveu o livro “Os de Lá de Riba” (Os de Lá de Cima), uma edição da autarquia de Monção, explica que quem saiu da aldeia “fala o português padrão” mas, quando volta à montanha, usa o ribamourês, com orgulho, para “valorizar” o que é único e por ser “o que as pessoas mais velhas sabem falar”.

“No dia a dia, quem saiu fala o português padrão. Quando voltamos, falamos este linguajar e fazemos questão. Associava-se a falta de cultura, a um atraso, mas hoje, até com o livro, perdeu-se essa vergonha. Passámos a gostar mais de nós, da maneira como falamos. Fazemos questão de o mostrar e isso faz com que outras pessoas também valorizem o que temos. Primeiro temos nós de valorizar e foi isso que tentámos fazer com este livro”, descreve a professora, que cresceu e ainda tem família na freguesia.

Com uma área próxima de 1.400 hectares e uma população de 802 habitantes (Censos 2021), Riba de Mouro é uma aldeia desertificada, de muitas subidas e descidas, ruas estreitas, sorrisos e gargalhadas, ainda de mulheres vestidas de preto da cabeça aos pés e vidas ligadas à agricultura e à criação de animais.

Em Cavenca, um lugar com cerca de “40 pessoas, se forem”, Maria Fernanda Afonso, de 61 anos, cruza-se com a reportagem da Lusa quando vai levar erva à corte onde estão a vaca e a cria que nasceu há oito dias e há de ser vendida lá para os cinco/seis meses.

Espreitar a recém-nascida deixou Maria Alves a suspirar com o “cheirinho a leite” e foi o mote para uma conversa difícil de acompanhar sobre “leite tenreiro” ou “côscaro” (o primeiro leite de uma vaca parida), que “não ferve nem dá para beber”, mas se mistura com “farinha milha” para – dizem – umas deliciosas filhoses.

Aos 54 anos, Emília Esteves trabalha “na agricultura e nas tarefas de casa”, tem o marido e o filho emigrados, trata de “duas vaquinhas, duas cabrinhas e galinhas, patos, horta e um campo de milho”, mas também passeia pela internet e pela rede social Facebook, desde “há uns três anos”, apesar de a freguesia não ter a cobertura de rede, mesmo para as ligações por telemóvel.

Diz que fala “uma mistura” do galego e que, para onde vai, fala “sempre assim”, embora algumas palavras ou expressões as pessoas de fora “não compreendam”.

“Às vezes, quando está a chover, dizemos ‘Agora vai vir um albeselhinho’. É quando está chuva e depois vem um bocadinho de sol. Uma aberta. Também dizemos ‘Dar um tiro c’unha atcha. É fazer uma coisa num instante, fazer rápido”, esclarece.

Alda Barreiros esclarece que se trata de “remediar uma situação ou arranjar uma alternativa quando a ocasião o exige”, o equivalente a “Quem não tem cão, caça com gato”.

A professora refere que o ribamourês “tem origem no galaico-português e muitas semelhanças em termos de vocabulário, de sintaxe, em termos morfológicos e de fonética”.

Maria Alves, contabilista, recorda que, quando os jovens de Riba de Mouro iam estudar para Monção eram “gozados” e tinham “vergonha de usar certas expressões” que utilizavam com a família.

Agora, desde que a oralidade ancestral da aldeia começou a ser passada para a escrita, no livro mas também na página Lá de Riba, no Facebook, “cada vez mais pessoas usam palavras ou expressões” do dialeto.

“Amigos ou colegas foram apreendendo e até já utilizam”, explica Maria.

O livro “Os de Lá de Riba – Os saberes e o linguajar de um povo”, teve uma segunda edição de 500 exemplares em novembro de 2023 e inclui um código QR “dinâmico”, já que através dele se pode atualizar o glossário.

“Isto nasceu como brincadeira, não como um projeto, há cerca de 10 anos. Resolvemos recolher informação sobre algumas características da freguesia que, por ser isolada, mantém ainda alguns costumes ancestrais, e registar por escrito o linguajar, para que não se perca”, descreve Alda Barreiros.

A publicação fala sobre os “bailaricos de Demingo à tarde” ou dos “proparativos para a boda”, quando era tudo “mais simples: marcava-se o dia, ia-se comer e pronto”.

Também estão ali reunidas as mezinhas que curavam quase tudo. Como a de Erguer o Ventre: “Quando uma criança estava mal mas não se sabia do quê, levava-se a uma senhora, que tinha de ser mãe de gémeos, fazia uma reza e ficava bom”, exemplifica Maria Alves.

“Lubar [levar] o canalho ao moinho” era outra das experiências, usada para que “a criança fosse educada e não se portasse mal”.

No glossário do livro, traduzem-se expressões do ribamourês ao longo de 14 páginas. Explica-se, por exemplo, que “Xoxegar a nádiga” é estar quieto, que “Ter os pês cm’on rijôn” é ter os pés quentes, que um “comitchojo” é uma pessoa com mau feitio ou de má vontade e “Beiçôn” é obrigada.

Os lucros relativos à venda do livro revertem totalmente a favor da Associação Social e Cultural Lá de Riba e a edição é da autarquia de Monção, que recentemente incluiu o dialeto na campanha turística lançada sobre a freguesia.

 

*Fotografia de “Riba de Mouro – O Desafio é lá em Riba”.

Programas de Autor

Episódios Recentes Ver Mais

Notícias

Internacional 31 Julho, 2026

NEOPOP celebra 20 anos e regressa às origens como ANTIPOP

Falta uma semana para o regresso do NEOPOP Electronic Music Festival a Viana do Castelo. A edição comemorativa dos 20 anos decorre entre 6 e 8 de agosto, no Forte de Santiago da Barra, reunindo dezenas de nomes nacionais e internacionais da música eletrónica.

Desporto 31 Julho, 2026

SC Vianense apresenta equipa aos adeptos este sábado frente ao Gil Vicente Sub-23

O Sport Clube Vianense apresenta-se este sábado, 1 de agosto, aos seus sócios e adeptos, num encontro frente à equipa de Sub-23 do Gil Vicente FC. A partida está marcada para as 17h00, no Estádio Municipal Manuela Machado, em Viana do Castelo, e terá entrada livre.

Desporto 31 Julho, 2026

Ponte de Lima: Concurso de Saltos Internacional regressa à Expolima

Ponte de Lima recebe, até domingo, 2 de agosto, mais uma edição do Concurso de Saltos Internacional (CSI), que reúne na Expolima alguns dos melhores conjuntos nacionais e estrangeiros da modalidade.

Regional 31 Julho, 2026

Mergulho no Cais da Ribeira regressa este sábado a Viana do Castelo

O tradicional Mergulho no Cais da Ribeira está de regresso a Viana do Castelo. A 9.ª edição da iniciativa realiza-se este sábado, 1 de agosto, às 15h00, junto ao rio Lima.

Opinião 31 Julho, 2026

OPINIÃO: Defender Viana também é nossa responsabilidade

Lamento que, tantas vezes, sejam os próprios vianenses os primeiros a falar mal da sua cidade, da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia e de tantas outras iniciativas, instituições e símbolos que fazem parte da nossa identidade coletiva.

Internacional 31 Julho, 2026

Tuna de Veteranos de Viana leva tradição minhota a encontro internacional em Oviedo

A Tuna de Veteranos de Viana do Castelo vai representar a cidade, o Minho e Portugal no XXIX Certame da Federação Internacional de Cuarentunas, que decorre entre 16 e 18 de outubro, em Oviedo, Espanha.

Música 31 Julho, 2026

Sing 4 Good encerram Festas de Santa Ana com concerto solidário a favor d’“O Berço”

A banda Sing 4 Good vai encerrar a edição de 2026 das Festas de Santa Ana com um concerto solidário marcado para o próximo domingo, 2 de agosto, às 22h00. A totalidade do cachet da atuação reverterá a favor da instituição “O Berço”.