O secretário-geral do Eixo Atlântico, Xoán Mao, avisou que não permitirá "qualquer marcha atrás" na linha de alta velocidade entre Lisboa e a Galiza, assumindo alguma preocupação face ao anúncio da ligação Lisboa-Madrid feito pelo Governo.

“Não vamos permitir que haja qualquer marcha atrás”, disse o secretário-geral do Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, instituição transfronteiriça que reúne 42 municípios do Norte de Portugal e da Galiza, em entrevista à Lusa.
Na terça-feira, o Governo aprovou a construção do novo aeroporto da região de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete, decicindo também mandatar a Infraestruturas de Portugal para concluir os estudos para a construção da Terceira Travessia do Tejo e da ligação ferroviária de alta velocidade Lisboa-Madrid.
Antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, já se tinha reunido com o seu homólogo espanhol, José Manuel Albares, e garantiu que houve consenso entre as duas partes em relação às ligações de comboio de alta velocidade e ao “mesmo grau de prioridade” que deve ter a linha entre Madrid e Lisboa e aquela que está prevista para unir Lisboa, Porto e Vigo, na Galiza.
“Cada uma delas tem uma lógica diferente e não são incompatíveis. Nós nunca levantámos nenhuma incompatibilidade com a conexão com Madrid. O que não queremos é que Madrid e Lisboa exerçam um centralismo antiquado e levantem incompatibilidades com a nossa conexão”, advertiu Xoán Mao.
O responsável do Eixo Atlântico considerou ainda “óbvio que a preocupação de Bruxelas e dos governos tenha que ser o que está atrasado, que é o Madrid–Lisboa”, que o Governo quer ver pronto em 2034.
“Quanto à prioridade ser a mesma, bem… claro que nos preocupa. Sempre que se coloca o tema de Lisboa, começa a ser a mesma prioridade e no final o Norte fica de fora”, advertiu, reconhecendo que o projeto de alta velocidade no eixo Lisboa-Vigo “está a avançar, mas pode ser perfeitamente parado”.
O responsável avisou que “se as prioridades mudam, pode parar-se”, considerando que “seria muito paradoxal que um homem de Lisboa, como António Costa, desenvolva os projetos do Norte, e um homem do Norte como Luís Montenegro os paralisasse”.
Xoán Mao considera que se o Governo PSD/CDS-PP liderado por Luís Montenegro “mudasse as prioridades relativamente ao Norte, o país pagaria um custo elevado em termos de coesão social, mas o PSD pagaria um elevadíssimo custo em termos políticos, começando pelas eleições autárquicas” de 2025, em que “o Norte não o perdoaria”.
O secretário-geral do Eixo Atlântico desafia ainda os governos de Portugal e Espanha para que na próxima Cimeira Ibérica, em outubro, “tornem público o acordo sobre onde será a ponte [ferroviária] sobre o rio Minho”, dando um sinal político de que “as prioridades são as mesmas” relativamente à ligação Lisboa-Madrid.
Xoán Mao disse ainda que o Eixo Atlântico já pediu uma reunião ao ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, que “ainda não respondeu”.
“Espero que nos dê uma resposta rapidamente, porque se dá prioridade a outras reuniões e demora muito, então talvez nos compense adiá-la, esperar e pedir só ao próximo ministro”, atirou.
Considerando que a ligação Lisboa-Madrid “é menos estruturante e provavelmente menos competitiva que a de Lisboa com a Galiza”, o Eixo Atlântico reconhece que “as duas capitais têm de estar ligadas”.
Porém, recordou que “há um fator de turismo muito importante para o país, que é o Caminho de Santiago, ao passo que entre Madrid e Lisboa não se faz o Caminho de Santiago”, relembrando que no eixo Lisboa-Galiza os turistas podem ir também “a Braga, cidade que tem uma grande importância no âmbito religioso e da arquitetura religiosa, ao Porto, Coimbra, a Leiria-Fátima, e a Lisboa”.
“Não nos esqueçamos que a conexão entre Lisboa e a Galiza é a que também dá saída e coordena as duas fábricas da Citroën [grupo Stellantis], a de Vigo e a de Mangualde”, na Linha da Beira Alta, lembrou, num eixo “onde vive toda a população, que liga aos portos e aos aeroportos”.
A linha de alta velocidade Lisboa-Porto deverá ligar as duas principais cidades do país numa hora e 15 minutos, com paragens possíveis em Gaia, Aveiro, Coimbra e Leiria. O percurso Porto-Vigo está estimado em 50 minutos.
A primeira fase (Porto-Soure) da linha de alta velocidade em Portugal deverá estar pronta em 2030, estando previsto que a segunda fase (Soure-Carregado) se complete em 2032, com ligação a Lisboa assegurada via Linha do Norte.
O concurso público para o lote 1 (Porto-Oiã) da primeira fase foi lançado em janeiro, e o do lote dois (Oiã-Soure) deverá ser lançado em julho. A ligação a Lisboa avançará em 2025.
Já a ligação do Porto a Vigo, na Galiza (Espanha), para depois de 2030, terá estações no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, Braga, Ponte de Lima e Valença (distrito de Viana do Castelo).
No total, segundo o anterior Governo, os custos do investimento no eixo Lisboa-Valença rondam os sete a oito mil milhões de euros.
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