O comandante dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez manifestou-se, na sexta-feira, “preocupado” com o uso do fogo para a limpeza de terrenos e alerta que, “sem regras mais apertadas”, aquela prática pode ser uma “bola de neve”.

“Há pessoas, fruto da legislação que obriga à limpeza dos terrenos, que recorrem ao uso do fogo. Sai mais barato. As pessoas sabem que os seus terrenos valem pouco e preferem que ardam a gastarem dinheiro com a limpeza”, afirmou Filipe Guimarães.
Contactado pela agência Lusa, a propósito do elevado número de incêndios que têm fustigado o concelho, 158 desde junho até quinta-feira, Filipe Guimarães disse sentir uma “imensa tristeza” por ser o concelho do distrito de Viana do Castelo “com mais incêndios florestais”.
O comandante dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez espera que que as autoridades encontrem os responsáveis, porque a recorrência dos incêndios provoca um “desgaste enorme” no corpo de bombeiros, “voluntários que se prestam a dar o seu contributo no período noturno, mas que têm os seus empregos, para não falar nas situações de perigo que causam a terceiros”.
“Se ninguém for responsabilizado e se as pessoas perceberem que conseguem resolver a questão [limpeza dos terrenos] com um simples fósforo ou com um isqueiro, vai ter um efeito de bola de neve”, disse.
Filipe Guimarães adiantou que “boa parte dos incêndios tem origem em hábitos culturais, relacionados com o pastoreio e a renovação de pastagens, mas que a maior percentagem tem origem em mão criminosa”. “Não tenho a menor dúvida. Quase todos os incêndios surgem no período noturno porque as pessoas sabem que durante a noite não há intervenção de meios aéreos e têm mais sucessos nas suas intenções”.
A título de exemplo, apontou o incêndio que ocorreu na freguesia de Rio Frio, no lugar de Aveleiras, e numa parte da freguesia de Monte Redondo.
“Em 20 dias, os bombeiros foram 33 vezes ao mesmo local e não porque os incêndios tenham ficado mal apagados. Tivemos situações em que os bombeiros andavam a apagar no flanco esquerdo e surgiram novas ignições no flanco direito. Andavam, literalmente, a brincar com os bombeiros que estão exaustos”, lamentou.
Esta sexta-feira, entre as 07h00 e as 10h00, “deflagraram quatro incêndios, em zona de mato”, sendo que “a situação mais preocupante abrange as freguesias de Cendufe e Padreiro Santa Cristina, com declive muito acentuado, com uma grande mancha de eucalipto”.
O corpo ativo dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez é composto “por 72 operacionais, mas apenas 38 são profissionais, incluindo administrativos, operadores de central, motoristas de transporte de doentes não urgentes”.
“A minha resposta de socorro durante entre as 0h:00 e as 19h00 assenta essencialmente nas três Equipas de Intervenção Permanente (EIP)”, observou.
Também o presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves, manifestou “preocupação” e pediu reforço de vigilância das autoridades.
“A esmagadora maioria dos incêndios tem mão criminosa. Há necessidade de reforço de vigilância por parte das autoridades para que sejam encontrados aqueles que possam estar na origem deste número elevado de ignições. Há um número recorrente de incêndios em determinadas zonas. É uma situação dramática e saturante”, alertou.
João Manuel Esteves referiu que esta situação “provoca uma enorme exaustão e até desmotivação nos bombeiros, porque as ignições são recorrentes em determinados locais”.
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