Algumas dezenas de alunos juntaram-se hoje na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, recuperando palavras de ordem de há 50 anos e reivindicando aulas mais práticas, outras formas de avaliação e uma maior atenção à saúde mental.

Empunhando cartazes com mensagens de Abril de 74, os estudantes – na sua maioria alunos de artes do Liceu Camões e da Secundária António Arroio, mas também da Marquesa de Alorna e da Gil Vicente, e algumas crianças do ensino básico – gritaram palavras de ordem e entoaram por diversas vezes “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, e “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho.
À Lusa, João Jesus, estudante do Liceu Camões, explicou que os jovens se reuniram para “reivindicar os seus direitos”, lembrando que os alunos “precisam de ter espaço suficiente para mostrarem a sua força”, juntamente com os auxiliares e professores, pois “todos os membros da escola fazem a diferença e querem mais visibilidade”.
No manifesto que segurava na mão, João Jesus defendeu “uma maior visibilidade na escola, uma maior visibilidade da educação no Governo, principalmente porque o Orçamento do Estado para a cultura é ridículo” e são precisas “escolas que tenham mais intervenção artística”.
“Queremos escolas que estejam mais vivas. Queremos a abolição de certa maneira dos exames. Nós queremos aulas mais práticas, queremos estar mais em contacto com o futuro e o manifesto não é apenas para falar sobre as nossas reivindicações, mas sim para falar do nosso futuro, porque o 25 de Abril ainda não acabou”, explicou o jovem de 17 anos.
A iniciativa, que nasceu numa turma do Liceu Camões, cresceu com a associação do Plano Nacional das Artes (PNA), que estendeu o convite aos 510 agrupamentos de escolas/escolas não agrupadas da sua rede nacional. Em conjunto, foi preparado um programa com exposições, espetáculos, debates, contanto também com o apoio da Comissão Comemorativa dos 50 anos de Abril de 1974.
Todas as ações, que tiveram início há cerca de um ano, segundo Sara Brighenti, subcomissária do PNA, culminaram hoje com o apelo “Todos à Manif”, “com muitas escolas de todo o país a sair à rua e os estudantes a apresentar as suas reivindicações”.
“Fizemos uma chamada a estas escolas nas várias cidades para que se manifestassem trazendo não só os princípios de Abril, da liberdade de expressão e de todas as liberdades, mas também as grandes questões que movimentam os jovens, no apelo a uma escola diferenciada e mais ligada com o mundo contemporâneo”, explicou.
Sara Brighenti resumiu à Lusa o caderno reivindicativo dos jovens como “uma grande vontade de ligar a aprendizagem à vida”, e reconheceu que os jovens gostam da escola, “mas precisam de uma que lhes dê conteúdo, que os torne mais participativos, que consiga compreender o mundo para escolher o ensino superior”.
De acordo com a subcomissária, outra das grandes questões dos estudantes “é a não hierarquização das disciplinas, ou seja, um ensino mais transdisciplinar, onde as artes são tão importantes como a ciência, a tecnologia, como as humanidades – para eles, não faz sentido essa divisão”.
Destes jovens vem também o alerta para a questão da saúde mental, referiu Sara Brighenti, lembrando que existe “muita ansiedade e muito stress causado pelos exames”.
“Temos de pensar que quando eles olham para a vida e para o futuro veem-no de uma forma mais turva. A pressão cai toda em cima desta geração, que tem criado muitas questões de saúde mental, e eles são explícitos, não têm vergonha de o dizer – que se pensem em novos modos de avaliar, que não seja só teste ou exame, que se encontrem formas mais criativas de o fazer”.
Matei Cascavel, 17 anos, explicou estar a manifestar-se hoje para “ter um futuro como artista, para ver se Portugal segue a dar um impulso na arte, na cultura, para tentar com que no futuro não tenha de emigrar”.
O aluno reconheceu que muitos dos artistas mais novos saem de Portugal “não pelo desgosto do país, mas pela falta de oportunidades”. Os jovens, sublinhou, são “definitivamente o futuro do país e são eles que têm de trazer para a rua estas manifestações”.
Também Mariana Pinho é uma jovem inconformada do alto dos seus 17 anos e concorda com o seu colega do Liceu Camões, reconhecendo que “muitos artistas emigram porque em Portugal não há estabilidade neste tipo de profissões, principalmente quem quer seguir teatro”.
“Nós aqui estamos a lutar por um papel muito importante, porque estamos em abril, o mês das revoluções e da mudança. Hoje em dia a verdade é que as artes são muito minimizadas e muito pouco credibilizadas, há muito mais palco para cursos de ciências e isso também se vê nas oportunidades de trabalho”, frisou.
Foto: Bloco de Esquerda Almada
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